O Livro Cozinha Tradicional Portuguesa, de Maria de Lourdes Modesto, foi lançado em janeiro de 1982 pela editora Verbo.[1]
É o livro de cozinha portuguesa mais vendido de sempre e está em milhares de casas.[1]
Um concurso de televisão, em 1961
Maria de Lourdes Modesto entrou na RTP a 15 de maio de 1958, e, durante doze anos, apresentou em direto o programa Culinária.[1]
Fazia sobretudo cozinha francesa, e os telespectadores queixaram-se.
"Os espetadores começaram, e bem, a reclamar e a exigir-me que fizesse cozinha tradicional portuguesa."[2]
De cada vez que fazia um prato tradicional, chegava-lhe correio a dizer que a tia não fazia assim,
que a receita da avó levava outra coisa, que na terra de quem escrevia se fazia de outra maneira.
Não havia uma versão a que se pudesse chamar a versão.
A resposta foi devolver a pergunta ao país.
Em 1961 promoveu na televisão o Concurso de Cozinha e Doçaria Regional Portuguesa, organizado com o Secretariado Nacional de Informação,
e pediu às pessoas as receitas da sua região, da sua casa, da sua família.[3]
Vieram 3181, umas escritas à mão, outras à máquina, com o nome e a morada de quem as tinha enviado.[1][4]
O acervo original ainda existe, guardado pela Associação dos Cozinheiros Profissionais de Portugal,
e está publicado online, organizado por região.
Pode ir lá ver as receitas que não entraram no livro.
Vinte anos decorreram entre a recolha e o livro
Entre o concurso e a publicação passaram vinte e um anos. O trabalho de fazer o livro demorou três.[2]
Os outros dezoito:
"Foi o tempo que andei a namorar aquele material. (…) A maneira como me respondiam era sempre tão rica, tão emotiva, que cada vez me metia mais medo."[2]
Nas fichas originais ficaram as notas dela:
"Faltam quantidades",
"Escrever ou telefonar a esta senhora saber se a receita não leva açúcar na massa",
"Falar D. Mª Eugénia".[1]
Escreveu e telefonou durante anos.
Comparou versões do mesmo prato, procurou saber quais eram da terra e quais tinham sido copiadas de livros antigos, e anotou o que apurava:
"Não é copiada",
"Colhi informações, é autêntica e muito típica no distrito de Portalegre",
"É bom. Em Coimbra quando eu era pequena faziam isto".[1]
No prefácio deixou escrito aquilo que estas notas mostram:
"a precisão das fórmulas matemáticas não tem lugar na cozinha tradicional".[1]
O livro, em 1982
O livro saiu em janeiro de 1982, com 336 páginas, textos regionais de António Manuel Couto Viana,
fotografias de Augusto Cabrita e de Homem Cardoso e maquete de Sebastião Rodrigues.
Custava 900 escudos.[1]
O Diário de Lisboa deu-lhe a capa a 16 de janeiro, com o título "Vinte anos a recolher séculos de receitas".[5]
Foi o primeiro livro de cozinha portuguesa organizado por regiões do país, com a Madeira e os Açores incluídos[1].
Essa decisão de arrumação ainda hoje decide como o livro se usa.
Vendeu mais de 400.000 exemplares, vai na 24.ª edição e teve edição inglesa em 1989.[1]
Ela morreu a 19 de julho de 2022, com 92 anos.[6]
O mesmo método, menos 3181 envelopes
Se tem o livro, o trabalho de hoje é escolher uma região e ler o índice inteiro antes de cozinhar seja o que for.
Se não tem, é uma edição que ainda se encontra e que dura uma vida.
E se o que tem em casa é o caderno da sua avó, ou meia dúzia de folhas soltas com a letra de alguém que já cá não está, o método é o mesmo que Maria de Lourdes Modesto usou:
reunir tudo num sítio, perguntar as quantidades enquanto ainda há a quem perguntar, e escrever ao lado de cada receita de onde ela veio.
Foi isso, e não outra coisa, que transformou 3181 envelopes num livro.
Guarde as receitas da sua família no seu Culinari,
com as quantidades e a origem de cada uma, prontas para um dia serem um livro.
Fontes
- Maria Margarida Abreu, Cozinha Tradicional Portuguesa de Maria de Lourdes Modesto: contributos
para a construção das identidades e do património culinário
português, dissertação de mestrado em Ciências
Gastronómicas, Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade NOVA de Lisboa, 2018.
É o estudo mais completo que existe sobre este livro, e a origem da maior parte dos dados e das
citações reunidos aqui: a entrada na RTP, o concurso, as notas nas fichas originais, o prefácio
e a ficha técnica da 1.ª edição (janeiro de 1982), e os números de vendas. - "Maria de Lourdes Modesto. 'Cozinhados era uma coisa a que eu não achava graça
nenhuma'",
entrevista a Tiago Pais, Observador, 31 de julho de 2016 - os três anos de trabalho, os vinte
de espera, e a reação dos telespectadores à cozinha francesa. - "Maria de Lourdes Modesto: 'Não sou contra a inovação na cozinha, sou contra o
disparate'",
entrevista a Marta Cerqueira, Jornal Sol, 10 de outubro de 2017 - a origem do concurso
(o ano, 1961, vem da dissertação de Maria Margarida Abreu). - Acervo das receitas originais recebidas em 1961, Associação dos Cozinheiros Profissionais de
Portugal. - Diário de Lisboa, n.º 20754, ano 61, capa de sábado, 16 de janeiro de
1982, "Vinte anos a recolher
séculos de receitas". A peça está na página 11 da mesma edição, com o título "«Cozinha
Tradicional Portuguesa» um livro que é um pitéu". Arquivo da Fundação Mário Soares e Maria
Barroso / fundo Ruella Ramos. - "Morreu Maria de Lourdes Modesto, a 'diva' da cozinha
portuguesa",
Público, 19 de julho de 2022.